Padre excomungado desafia Vaticano e lota missas
Escrito por Jornalismo Nativa em 15 de Julho, 2026
Uma crise religiosa que atravessa décadas e envolve disputas sobre tradição, autoridade papal e as reformas promovidas pelo Concílio Vaticano II ganhou um capítulo brasileiro. A Arquidiocese de Brasília confirmou a situação de cisma e excomunhão do padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa, responsável pela Capela Santo Atanásio, em Ceilândia, no Distrito Federal. O sacerdote, porém, rejeita a punição e afirma que continuará celebrando missas normalmente.
O caso está relacionado à adesão do padre à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), organização católica tradicionalista fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre. O grupo tornou-se um dos principais polos de resistência às transformações promovidas pela Igreja Católica a partir do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965.
Entre as principais bandeiras da fraternidade estão a defesa da missa segundo o rito anterior às reformas conciliares, celebrada em latim e tradicionalmente com o sacerdote voltado para o altar, além da rejeição de parte das mudanças litúrgicas, pastorais e teológicas implementadas pela Igreja nas últimas décadas.
A nova ruptura foi desencadeada pela ordenação de quatro bispos sem autorização da Santa Sé, em cerimônia realizada em 1º de julho, em Écône, na Suíça. O Vaticano considerou o ato cismático e aplicou sanções aos envolvidos. A decisão também alcançou ministros e fiéis que aderirem formalmente à posição de ruptura sustentada pela fraternidade.
Em Brasília, a consequência mais visível foi a situação canônica do padre Françoá e da comunidade reunida na Capela Santo Atanásio. Em nota pastoral, a Arquidiocese de Brasília afirmou que as celebrações, atividades pastorais e iniciativas de formação promovidas no local são consideradas irregulares por não serem exercidas em plena comunhão com o papa e com o arcebispo metropolitano.
A determinação produz consequências concretas para a vida religiosa da comunidade. Segundo as orientações divulgadas, os atos ministeriais praticados pelo sacerdote passam a ser considerados ilícitos. No caso da confissão e do matrimônio, a Igreja considera que a absolvição administrada e os casamentos assistidos pelo padre não possuem validade canônica.
A Arquidiocese também advertiu os católicos sobre a participação nas atividades da capela. Fiéis que aderirem formalmente à Fraternidade São Pio X, compartilhando suas razões de ruptura e rejeitando, na prática, a submissão ao pontífice e aos bispos em comunhão com Roma, também podem ser considerados cismáticos e excomungados.
O alerta foi feito pelo arcebispo de Brasília, cardeal Paulo Cezar Costa, que recomendou aos católicos evitar celebrações e demais atividades realizadas na Capela Santo Atanásio diante do que classificou como risco de adesão gradual ao cisma.
Padre rejeita punição e promete continuar celebrando
A reação do padre Françoá foi imediata. Em vídeos publicados nas redes sociais e em declarações à imprensa, o sacerdote afirmou não reconhecer a validade das sanções impostas contra ele e contra a Fraternidade São Pio X.
Para o padre, as excomunhões seriam “inválidas” e “nulas”. Ele sustenta que a fraternidade não rompeu com a Igreja Católica porque continua reconhecendo Leão XIV como papa e mencionando o pontífice durante as celebrações: “Continuaremos todos os dias a rezar a Santa Missa, a mencionar o nome do Santo Padre no cânon da missa, a rezar, aqui no caso de Brasília, pelo senhor arcebispo de Brasília, consciente de que somos católicos”, afirmou.
Em uma das declarações mais duras, Françoá reafirmou sua rejeição ao caminho adotado pela Igreja após o Concílio Vaticano II e atacou aquilo que chamou de “Igreja sinodal, conciliar e falsa religião”. A fala evidencia que a controvérsia ultrapassa uma discussão pontual sobre disciplina eclesiástica e alcança divergências profundas sobre os rumos do catolicismo contemporâneo.
Mesmo após alerta, capela permanece frequentada
A advertência da Arquidiocese não esvaziou imediatamente a comunidade. Relatos da imprensa local apontaram que a Capela Santo Atanásio permaneceu lotada após a divulgação da nota pastoral. Entre os frequentadores, chamou atenção a presença significativa de jovens. A celebração manteve os elementos característicos do tradicionalismo católico: missa em latim, sacerdote voltado para o altar e códigos de vestimenta mais conservadores entre parte dos participantes.
A permanência dos fiéis transforma a crise em um desafio que vai além da punição individual de um sacerdote. A disputa passa a envolver também a capacidade de grupos tradicionalistas de mobilizar católicos que enxergam as mudanças promovidas pela Igreja nas últimas décadas como um afastamento daquilo que consideram a verdadeira tradição.
Nesse cenário, a excomunhão pode não produzir, entre os seguidores mais convictos, o efeito de isolamento esperado. Ao contrário, para determinados grupos, a punição pode ser interpretada como confirmação de uma narrativa segundo a qual os tradicionalistas estariam sendo perseguidos justamente por permanecerem fiéis à doutrina.
Mais do que uma disputa sobre ritos antigos, o episódio revela a profundidade da tensão entre setores ultra tradicionalistas e a Igreja Católica contemporânea. Ao rejeitar publicamente a punição e prometer continuar suas atividades, o padre Françoá transforma a crise de autoridade em confronto aberto.
O caso de Brasília passa, assim, a integrar um conflito global sobre os limites da tradição, da obediência e da autoridade dentro do catolicismo. E, enquanto Roma fala em cisma e excomunhão, na Capela Santo Atanásio as missas continuam sendo celebradas — como se a decisão do Vaticano não existisse.
Fonte: Revista Fórum
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