Egresso da UFPA é aprovado para doutorado em Harvard e pesquisará trabalho escravo na Amazônia
Escrito por Jornalismo Nativa em 11 de Junho, 2026
Formado em Direito, pesquisador investigará a relação entre escravidão contemporânea, racismo e reparações históricas na região amazônica
A trajetória acadêmica construída na Universidade Federal do Pará (UFPA) levou um egresso do curso de Direito do Instituto de Ciências Jurídicas (ICJ) a conquistar uma vaga no programa de doutorado em Estudos Africanos e Afro-Americanos da Universidade Harvard, uma das instituições de ensino superior mais prestigiadas do mundo. A aprovação reforça o reconhecimento da qualidade da formação oferecida pela universidade pública amazônica e da relevância das pesquisas produzidas na região.
Formado com Láurea Acadêmica, o pesquisador Heitor Lurine Guimarães iniciou sua trajetória científica ainda na graduação, participando do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (PIBIC) e do Programa Institucional de Voluntários de Iniciação Científica (PIVIC). A dedicação à pesquisa resultou na conquista do Prêmio Horácio Schneider de Destaque da Iniciação Científica na área de Ciências Humanas, concedido pela UFPA aos trabalhos de maior relevância desenvolvidos por estudantes de graduação.
“Essas oportunidades foram fundamentais não apenas para que eu desenvolvesse as habilidades básicas de pesquisador das humanidades, mas também para me inserir no universo dos seminários, congressos, publicações etc.”, afirma.
Em Harvard, o pesquisador desenvolverá uma tese voltada à investigação do trabalho escravo em latifúndios ligados a grandes empresas privadas no Pará durante o período da ditadura militar brasileira. O programa de Estudos Africanos e Afro-Americanos dedica-se à análise da diáspora africana em suas múltiplas dimensões históricas, sociais, políticas e culturais.
A pesquisa pretende contribuir para a reconstrução da memória recente da Amazônia, marcada pela expansão de projetos agropecuários, extrativistas e minerários que utilizaram mão de obra submetida a condições análogas à escravidão, especialmente de pessoas negras residentes na região. Segundo o pesquisador, o objetivo é compreender como essa experiência histórica se relaciona com questões de negritude, racismo e afrodescendência na Amazônia.
“A minha tese tentará reconstruir a história dessa escravidão contemporânea e como ela se relaciona com as questões de negritude, racismo e afrodescendência na Amazônia. Meu intuito é refletir como essa experiência repercute na construção de um projeto de reparações pela escravidão em todas as suas formas”, explica.
Para o egresso, a aprovação representa uma conquista coletiva e simboliza avanços históricos alcançados por gerações de sua família. “Para mim representa sobretudo uma vitória para os que vieram antes de mim e que tornaram possível que eu chegasse tão alto. Minha avó materna, uma mulher preta retinta, começou a trabalhar como empregada doméstica aos 9 anos e só aprendeu a ler aos 40. Depois dela, minha mãe foi a primeira pessoa da família a ter nível superior, e agora eu sou o primeiro a alcançar a esfera internacional. É um longo processo de construção coletiva, que também acontece nas famílias de muitos jovens negros paraenses. Além disso, representa a potência da universidade pública enquanto centro de produção de conhecimento”, destaca.
Fonte: O Liberal
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