Qualificação feminina cresce no Pará, mas liderança ainda é desafio

Escrito por em 8 de Março, 2026

A presença feminina no mercado de trabalho paraense avançou de forma consistente nas últimas décadas, mas ainda esbarra em barreiras estruturais quando o assunto é ocupar posições de liderança, especialmente em setores historicamente dominados por homens. É o que revela o estudo “Paradoxo da Qualificação: Inserção Feminina na Economia do Pará (2008–2024)”, desenvolvido pelo Observatório da Indústria da Fiepa.

Os dados mostram um cenário que, à primeira vista, parece contraditório, embora mais qualificadas, as mulheres seguem sub-representadas nos espaços de liderança. Hoje, elas já são maioria entre os trabalhadores com ensino superior no estado, cerca de 59,2% da força de trabalho feminina possui graduação completa, contra 40,8% dos homens. Ainda assim, ocupam apenas 43,6% dos cargos de direção e gerência.

Na prática, isso significa que o acesso à educação não tem sido suficiente para garantir ascensão profissional. O chamado “teto de vidro” continua limitando o avanço feminino, sobretudo em áreas como indústria, construção civil e setores técnicos, onde a presença masculina ainda é predominante.

Essa realidade também reflete na distribuição geral do mercado. Homens ocupam cerca de 58% dos postos formais no Pará, enquanto as mulheres representam 42%. A diferença ultrapassa 200 mil vínculos empregatícios.

Foi em um ambiente onde quase não havia outras mulheres que Veridiany Silva decidiu construir sua carreira. Hoje, praticante oficial de máquinas da Marinha Mercante, ela começou sua trajetória ao ingressar em um curso técnico de mecânica no SENAI. Era a única mulher na turma.
Veridiany Silva conseguiu se destacar e crescer profissionalmente em um ambiente ocupado, principalmente, por trabalhadores do sexo masculino (Divulgação / Ascom / Fiepa)

“Enfrentei preconceito, mas também encontrei acolhimento. Precisei provar minha capacidade o tempo todo”, relembra a trajetória.

A partir dali, Veridiany trilhou um caminho marcado por persistência. Passou por estágios em oficinas mecânicas, atuou como técnica, tornou-se instrutora e seguiu tentando ingressar na carreira marítima, mesmo quando o sonho parecia ser interrompido naquele momento devido a uma regra que a impediu de participar de um processo seletivo por ser mãe.

Sem desistir, encontrou alternativas dentro da própria estrutura do setor. Ingressou na Marinha de Guerra, avançou na carreira técnica e, anos depois, conseguiu chegar ao posto que sempre almejou. Em 2025, voltou a ser a única mulher em uma turma de 32 alunos durante o curso de formação para oficial de máquinas.

“Hoje ainda existem olhares de desconfiança. Muitas vezes, nossas opiniões não são consideradas de imediato. Mas seguimos mostrando que somos capazes”, afirma.

Histórias como a de Veridiany se somam a inúmeros relatos de mulheres que enfrentam a segregação ocupacional. Enquanto as mulheres são maioria em áreas como educação, saúde e serviços, setores que concentram mais de 336 mil vínculos femininos, sua presença ainda é reduzida em segmentos estratégicos da economia, como a indústria e a infraestrutura.

Além disso, mesmo quando conseguem acessar esses espaços, enfrentam desigualdades salariais. Em setores de maior remuneração, como eletricidade, gás e indústrias extrativas, a diferença salarial pode ultrapassar R$ 2 mil em favor dos homens.

No topo da hierarquia corporativa, o cenário também é desafiador. A vice-presidente executiva da Fiepa, Marcella Novaes, conhece bem essa realidade. Com mais de três décadas de atuação em empresas multinacionais, ela foi a primeira diretora-executiva da Agropalma, uma posição inédita em um ambiente majoritariamente masculino.
Marcella Novaes é vice-presidente executiva da Fiepa (Divulgação / Ascom / Fiepa)

“Quando você chega a posições estratégicas, percebe que ainda há pouca representatividade feminina. Falta identificação, falta referência”, afirma.

Para ela, ocupar esses espaços vai além da realização profissional. Trata-se de abrir caminhos. “Desbravar novos espaços é desafiador. Mas a gente entende que está deixando um caminho pronto para outras mulheres. Esse é o nosso papel, criar oportunidades e garantir que elas permaneçam”.

Marcella também destaca que o avanço da diversidade não é apenas uma questão de equidade, mas de estratégia. “Não existe ambiente de negócios competitivo sem diversidade. Quanto mais visões diferentes, mais rico e inovador é o time”.

Apesar dos desafios, os dados apontam sinais de transformação. O número de mulheres empreendedoras no Pará cresceu de 40 mil para 61,5 mil entre 2012 e 2024, indicando que muitas têm buscado alternativas fora do mercado formal diante das dificuldades de ascensão.

É o caso de Priscilla Vieira, empresária industrial que assumiu, ao lado da irmã, Larissa d’Ávila, a gestão da MLX, empresa fundada pela mãe há mais de três décadas. Criada em uma família de empreendedores, ela conta que começou a vender ainda muito jovem.
As irmãs Priscilla Vieira e Larissa d’Ávila à frente de uma empresa do setor têxtil (Divulgação / Ascom / Fiepa)

Priscilla conta que, ao assumir a empresa, o desafio foi duplo: preservar o legado materno e reposicionar a marca em um mercado competitivo e predominantemente masculino, especialmente no segmento de uniformes técnicos e industriais. “Assumir esse legado foi, ao mesmo tempo, uma honra e um grande desafio. Conciliar maternidade, liderança e expansão empresarial exigiu resiliência, preparo e muita firmeza. Empreender, para mim, é sobre honrar a história que nos trouxe até aqui e construir, todos os dias, uma indústria mais forte, mais humana e preparada para o futuro”.

Se nas empresas familiares a liderança feminina avança, nos grandes grupos industriais a pauta da diversidade também começa a ganhar escala. A Vale, por exemplo, estabeleceu em 2019 a meta de dobrar a participação de mulheres em seu quadro até 2025. O objetivo foi alcançado com um ano de antecedência e a presença feminina saltou de 13% para 26% já em 2024 na empresa.

Além da ampliação interna, a companhia apoia iniciativas comunitárias lideradas por mulheres, especialmente no campo do empreendedorismo coletivo. “O objetivo é alcançar benefícios que vão além do individual, impactando positivamente toda a comunidade. Queremos que elas cresçam e evoluam de forma autônoma, aproveitando o potencial de seus negócios para gerar renda, criar oportunidades de trabalho, reduzir as desigualdades sociais, promover a diversidade e apoiar a melhoria da qualidade de vida de todo grupo”, afirma o diretor de Territórios Norte da Vale, Eloiso Araújo.
Cooperativa Filhas da Terra recebe o apoio da Vale (Divulgação / Ascom / Fiepa)

Um dos exemplos é a Cooperativa Filhas da Terra, da Área de Proteção do Gelado, localizada em Parauapebas, no sudeste do Pará. Formada por 22 mulheres, a cooperativa produz biscoitos, bolos, doces, geleias, hortaliças e artesanato. “Quando você compra nossos produtos, você não está apenas levando um produto artesanal, natural livre de conservante, você vai estar comprando sonhos criados com todo zelo e carinho por mulheres da região”, afirma Reginalva Fialho, integrante da cooperativa.

Colaboradoras inspiram novas gerações ocupando funções técnicas e estratégicas

Em um ambiente historicamente ocupado por homens, as mulheres vêm mostrando, na prática, que competência, dedicação e excelência não têm gênero. No mês em que se celebra o Dia Internacional da Mulher, a trajetória de profissionais que atuam em funções operacionais e estratégicas na unidade da Suzano, em Belém, revela histórias de persistência, superação e inspiração para novas gerações.
Luciane Barros e Francirleia Batista Campos (Ascom/Suzano)

Luciane Barros, 41 anos, é operadora de empilhadeira e trabalha em máquinas que pesam até quatro toneladas, mas quando entrou na empresa cinco anos atrás como auxiliar de logística nem Carteira de Habilitação ela tinha. Luciane conta que foi incentivada a se habilitar e concluir os estudos por meio do EJA (Educação de Jovens e Adultos) para mudar de função, o que mudou a trajetória de vida dela. A atividade, que exige habilidade técnica, raciocínio rápido e controle emocional, é desempenhada com excelência, reforçando que a presença feminina agrega qualidade e eficiência aos processos logísticos da fábrica.

“Eu me sinto confiante no que eu faço, graças a Deus nunca ocorreu nenhum acidente porque eu faço a operação com muito cuidado. Para mim é prazeroso, porque estou fazendo uma coisa que antes era realizada por homens e agora tem uma mulher e isso é muito satisfatório. Eu que sempre fui muito medrosa, exercendo minha função me sinto confiante, poderosa, realizada e agradecida”, afirma Luciane que, apesar de ter habilitação A e B não dirige no dia-a-dia. Volante pra ela, só o da empilhadeira.

A segurança da Luciane e de todos os colaboradores(as) das unidades de Belém e Maracanaú, no Ceará, é responsabilidade de outra mulher. À frente da coordenação de segurança, Francirleia Batista Campos, 41 anos, tem a missão de garantir que cada colaborador(a) retorne para casa com saúde e integridade ao final do expediente. Em um setor que exige decisões rápidas, conhecimento técnico e liderança constante, ela demonstra diariamente que preparo e responsabilidade são fundamentais para manter um ambiente industrial seguro, sustentável e eficiente.

Fran, como é chamada pelos colegas, comanda uma equipe de 10 técnicos de segurança, quatro bombeiros civis e uma analista, única mulher além dela no setor, mas destaca que o respeito é comum em todas as áreas da empresa, já que a Suzano trabalha muito a questão da equidade e respeito independente de sexo ou gênero e isso reflete na quantidade de mulheres na operação e nos cargos de liderança. “Foi difícil chegar até aqui, passei por outras empresas onde isso não era abordado, onde era necessário provar minha capacidade todo dia. Hoje eu sou grata por onde estou, pelas conquistas, de ter conseguido chegar nessa posição com esse nível de respeito. Não é fácil, mas já foi mais difícil”, afirma.

“Essas profissionais demonstram, todos os dias, alto nível técnico, responsabilidade e compromisso com a excelência, contribuindo diretamente para os nossos resultados e para o fortalecimento da nossa cultura. Mais do que celebrar o Dia da Mulher, queremos inspirar e criar oportunidades para que cada vez mais mulheres se desenvolvam e cresçam na indústria”, garante Gisele Oliveira, Coordenadora de Gente e Gestão da Suzano.


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