Frei Betto acende o sinal vermelho para a esquerda
Escrito por Jornalismo Nativa em 11 de Maio, 2026
Frei Betto fez um dos alertas mais duros à esquerda brasileira neste momento de campanha eleitoral.
Segundo o escritor, teólogo e frade dominicano, as forças progressistas se afastaram das periferias, abandonaram a educação popular e deixaram de investir na formação política que foi decisiva durante a resistência à ditadura militar e na construção das condições que levaram Luiz Inácio Lula da Silva à Presidência da República.
“Nós fomos abandonando as bases. Não há reprodução, não há formação política, não há equipes de educação popular. Paulo Freire hoje, no máximo, fica nas estantes e não na prática”, afirmou Frei Betto.
Na mesma entrevista, ele disse que partidos e sindicatos perderam capacidade de mobilização social após o enfraquecimento das estruturas populares. Também apontou um processo de elitização de setores da esquerda ao ocuparem cargos institucionais e espaços de governo.
Foi nesse contexto que usou uma expressão dura: “esquerda de salto alto”.
Para Frei Betto, é a esquerda que chega ao governo e começa a se afastar do povo; que não quer mais ir à periferia, subir favela ou estar ao lado dos movimentos populares.
A crítica tem peso porque não vem de fora da esquerda. Vem de alguém que dedicou a vida à educação popular, à Teologia da Libertação, à resistência democrática e à formação das bases sociais que ajudaram a tornar Lula possível.
O diagnóstico é ainda mais grave porque aponta uma consequência concreta: o vazio deixado pela esquerda nas periferias foi ocupado por outras forças.
“Hoje essas áreas estão dominadas por fundamentalistas, milícias e narcotráfico. Ninguém mais da esquerda faz trabalho político nessas regiões”, afirmou.
O alerta, portanto, não é apenas moral. É político. E, em 2026, é também eleitoral.
A advertência que já estava em A mosca azul
A entrevista ganha mais força quando lida à luz de A mosca azul, livro em que Frei Betto refletiu sobre sua experiência no primeiro governo Lula.
Entre 2003 e 2004, ele foi assessor especial da Presidência da República e coordenador da Mobilização Social do programa Fome Zero.
O livro não era apenas relato de bastidores. Era uma reflexão crítica sobre o poder, suas seduções e seus riscos. Frei Betto escrevia como alguém que havia visto, por dentro, a chegada da esquerda ao Palácio do Planalto.
Vinte anos depois, sua entrevista retoma a mesma advertência em outro momento histórico.
Em A mosca azul, Frei Betto alertava para o risco de a esquerda se encantar com o poder. Agora, aponta uma consequência concreta desse encantamento: o afastamento das bases populares.
A “mosca azul” do poder não produz apenas vaidade pessoal. Produz deslocamento político. Faz lideranças confundirem governo com povo organizado. Faz partidos confundirem cargos com presença social. Faz militantes confundirem comunicação institucional com educação popular.
Faz a esquerda acreditar que políticas públicas, por si só, substituem o trabalho paciente de formação, escuta e organização.
É contra essa ilusão que Frei Betto volta a falar.
Lula nasceu da base, não do marketing
Um dos pontos centrais da entrevista é a lembrança de que Lula não chegou à Presidência por obra de marketing eleitoral ou apoio empresarial.
Para Frei Betto, Lula foi resultado do acúmulo político do movimento popular construído desde a luta contra a ditadura.
Essa frase reorganiza o debate.
Lula não foi criação publicitária. Foi construção histórica.
Nasceu das greves do ABC, das comunidades eclesiais de base, das pastorais, dos sindicatos, dos movimentos de bairro, da resistência democrática, da Teologia da Libertação, da educação popular e dos círculos de formação política.
Esse é o ponto essencial do alerta.
Se Lula nasceu de um longo processo de organização popular, o que acontece quando esse processo se enfraquece?
Se a esquerda venceu porque formou consciência social, o que acontece quando abandona a formação?
Se o campo progressista construiu sua força nas periferias, nos sindicatos, nas comunidades e nos movimentos, o que acontece quando deixa esses espaços vazios?
A resposta aparece no próprio diagnóstico de Frei Betto: esses territórios passaram a ser ocupados por outras forças. Forças conservadoras, autoritárias, religiosas fundamentalistas, milicianas, criminosas ou diretamente vinculadas à extrema direita.
Não foi apenas erro
O alerta de Frei Betto levanta uma pergunta incômoda: por que a esquerda saiu das periferias, das favelas, dos sindicatos, das escolas públicas, das igrejas, dos movimentos sociais e do contato direto com o povo?
A resposta não é simples.
Houve erro da própria esquerda, sim. Houve institucionalização excessiva, deslumbramento com cargos, dependência da política parlamentar, perda de trabalho de base e substituição da educação popular pela comunicação de campanha.
É disso que Frei Betto fala quando denuncia a “esquerda de salto alto”.
Mas não houve apenas erro interno.
Desde o fim dos anos 1960, a América Latina foi alvo de uma ofensiva geopolítica, religiosa e ideológica contra as formas de organização popular que ameaçavam os interesses dos Estados Unidos e das classes dominantes locais.
Essa ofensiva mirava sindicatos combativos, movimentos populares, experiências de educação política, setores progressistas da Igreja Católica e, especialmente, a Teologia da Libertação.
Washington entendeu cedo o perigo representado por uma Igreja que deixava de ser apenas sustentáculo da ordem e passava a atuar ao lado dos pobres. Documentos oficiais norte-americanos mostram que, já em 1969, no governo Richard Nixon, a Casa Branca pedia estudos sobre o papel da Igreja Católica na América Latina e sobre as razões pelas quais setores religiosos se aproximavam de posições consideradas radicais.
A Teologia da Libertação era perigosa para os donos do poder porque ligava fé e justiça social. Ligava Evangelho e pobreza. Ligava comunidade e consciência política. Ligava a missa, a Bíblia, a associação de bairro, a luta por terra, o sindicato, a alfabetização e a organização popular.
Não por acaso, foi combatida por fora e por dentro.
Por fora, pelas ditaduras latino-americanas, pelas elites econômicas e pelos aparelhos ideológicos da Guerra Fria, que viam qualquer organização popular como ameaça comunista.
Por dentro, pela própria hierarquia conservadora da Igreja Católica, sobretudo a partir do papado de João Paulo II e da ação doutrinária do cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI.
Em 1984, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a Instrução sobre certos aspectos da Teologia da Libertação, documento que reconhecia a preocupação cristã com os pobres, mas condenava o uso de categorias marxistas e advertia contra a transformação da fé em projeto político revolucionário.
O resultado foi profundo.
A Igreja popular perdeu força. As comunidades eclesiais de base foram esvaziadas. Padres, freiras, agentes pastorais e leigos comprometidos com a luta social foram isolados, substituídos ou empurrados para a margem.
A opção preferencial pelos pobres continuou como expressão aceita no discurso, mas perdeu parte de sua potência organizada no território.
Ao mesmo tempo, a direita religiosa cresceu.
Esse deslocamento não pode ser explicado por uma única causa. Seria simplista atribuir o avanço conservador nas periferias apenas a uma operação externa. Houve urbanização acelerada, crise da presença católica, abandono pastoral, busca popular por acolhimento, redes de apoio e linguagem direta.
Mas é impossível ignorar que esse processo foi funcional à estratégia conservadora.
Onde antes havia comunidade eclesial de base, educação popular e organização política, passaram a existir púlpitos anticomunistas, redes de obediência moral, guerra cultural e mobilização eleitoral da direita.
O espaço da fé popular, antes disputado por uma leitura libertadora do cristianismo, passou a ser ocupado por fundamentalismos e lideranças alinhadas aos projetos das classes dominantes.
É nesse ponto que o alerta de Frei Betto encontra sua dimensão histórica.
Quando ele diz que Paulo Freire ficou na estante, está falando de uma derrota política profunda. Paulo Freire é odiado pela extrema direita porque seu método ensina o povo a ler o mundo, não apenas a ler palavras.
Sua pedagogia transforma alfabetização em consciência. Transforma experiência de opressão em pergunta política. Transforma o pobre em sujeito, não em objeto de caridade, manipulação ou obediência.
Vista por esse ângulo, a ausência da esquerda nas periferias não foi apenas abandono. Foi também resultado de uma disputa perdida — ou negligenciada — por território, fé, linguagem, formação e presença.
Frei Betto não absolve a esquerda. Ao contrário: cobra dela responsabilidade histórica. Mas seu alerta permite compreender que o vazio atual não nasceu do nada. Foi produzido por décadas de ofensiva conservadora, repressão às organizações populares, neutralização da Igreja progressista, demonização de Paulo Freire e ocupação religiosa, política e digital das periferias.
A eleição começa antes da eleição
O alerta de Frei Betto é ainda mais importante porque o Brasil entra numa campanha duríssima.
A disputa de 2026 não será apenas entre candidatos. Será entre dois projetos de país.
De um lado, o projeto representado por Lula e pelo campo democrático-popular: reconstrução do Estado, defesa da soberania, combate à fome, ampliação de direitos, valorização do trabalho, recuperação de políticas públicas e preservação da democracia.
De outro, o projeto da extrema direita: autoritarismo, submissão internacional, guerra cultural permanente, destruição de direitos sociais, perseguição política, captura religiosa da política, manipulação digital e tentativa de anistiar o golpismo.
Mas Frei Betto parece advertir que essa disputa não se resolve apenas no horário eleitoral, nos palanques, nas pesquisas, nas redes sociais ou nas alianças parlamentares.
A eleição começa antes da eleição.
Começa no bairro. Na igreja. No sindicato. Na escola. Na associação de moradores. No grupo de WhatsApp da família. Na conversa com o trabalhador endividado. No diálogo com a juventude precarizada. Na escuta das mães que vivem a insegurança cotidiana.
É aí que a extrema direita tem atuado com método, disciplina e agressividade.
E é aí que, segundo Frei Betto, a esquerda se ausentou.
Voltar ao povo
A advertência de Frei Betto aponta para uma tarefa concreta: voltar ao povo.
Voltar às periferias, às favelas, aos sindicatos, às escolas públicas, às igrejas populares, aos movimentos sociais, às associações de bairro, aos jovens trabalhadores, às mulheres que sustentam famílias inteiras, aos aposentados, aos entregadores, aos informais, aos endividados, aos invisíveis.
Voltar não como visita de campanha.
Voltar como presença.
Voltar como escuta.
Voltar como formação.
Voltar como educação popular.
Voltar como reconstrução de laços.
Esse é o sentido mais profundo do alerta de Frei Betto. Ele não oferece uma frase de efeito. Oferece uma memória histórica e uma advertência política.
A esquerda que levou Lula ao poder nasceu no chão do Brasil.
Se quiser sustentar Lula, defender a democracia e enfrentar a extrema direita em 2026, terá de reencontrar esse chão.
A mosca azul já havia sido identificada por Frei Betto vinte anos atrás. Agora, ele volta para dizer que a picada deixou marcas profundas.
A pergunta, neste momento decisivo, é se a esquerda terá humildade para ouvir.
Nativa FM Itinga 88,5