Privatização fracassa e Tesouro banca frete e capinagem
Escrito por Jornalismo Nativa em 14 de Julho, 2026
Segundo a ANTT, a Rumo dilapidou patrimônio público
Privatização fracassa — e o Tesouro terá de bancar os custos de manutenção da ligação ferroviária entre Mairinque (São Paulo) e Corumbá (Mato Grosso), além do ramal Campo Grande (Mato Grosso do Sul) e Ponta Porã. São 1.973,1 quilômetros de trilhos hoje sem qualquer transporte ferroviário.
A Rumo Logística, controlada pela Cosan, do empresário Rubens Ometto, descumpriu os termos do contrato, de acordo com o Tribunal de Contas da União (TCU). A Cosan havia assumido a Malha Oeste em 2015, como resultado da fusão com a ALL (América Latina Logística).
O contrato original é de 1996, com prazo de 30 anos.
A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) prorrogou o contrato por 180 dias. Foi o quinto aditivo. Neste período, não haverá transporte ferroviário.
Em 2025, a Rumo foi multada em R$ 2,1 milhões pela ANTT por remover os trilhos de um ramal para colocar em outro. A multa foi por “dilapidação do patrimônio público”.
Quem vai pagar a conta?
A Rumo receberá do Tesouro para a manutenção da ferrovia, sem pagamento de outorga.
Serão R$ 26,9 milhões. Destes, R$ 5,6 milhões serão dedicados à carpinagem e roçado.
Outros R$ 2,4 milhões serão pagos pelo Tesouro para transporte rodoviário da produção da Arcelor Mittal, que embarca produtos siderúrgicos, especialmente vergalhões de ferro, entre Mairinque e o Mato Grosso do Sul.
A Arcelor Mittal e a Rumo travaram batalhas em torno da Declaração de Dependência, termo legal que obrigaria a concessionária a carregar as cargas da siderúrgica.
Um encontro de contas deve ser feito aos final dos 180 dias de concessão prorrogada, quando se espera o resultado de uma relicitação.
A Rumo tem o monopólio ferroviário no estado de São Paulo.
De acordo com a ANTT, a concessionária não fez os investimentos necessários:
A infraestrutura da Malha Oeste, incluindo sua via permanente, encontra-se depreciada. Durante anos, a atual concessionária realizou investimentos em patamares insuficientes para a sua manutenção. O subinvestimento acarretou perda da capacidade de transporte.
Antes do vencimento do contrato, em 30 de junho de 2026, a Rumo tentou a repactuação, mas o TCU abateu o pedido.
O ministro Aroldo Cedraz alegou que seria “burla à licitação de um novo projeto de infraestrutura ferroviária”.
Ele também escreveu:
A proposta de solução consensual permitiria a manutenção da mesma concessionária, que atualmente não preenche os requisitos para prorrogar o contrato, por outros 30 anos, em detrimento da possibilidade de participação de novos interessados na exploração da malha ferroviária.
Para o TCU, houve “cherry picking” por parte da Rumo. A expressão, que literalmente significa “colheita de cerejas”, significa que a empresa, detentora de várias concessões, teria optado por beneficiar outras malhas, como a Paulista e a Norte, em detrimento da Malha Oeste, menos rentável.
A Malha Norte, entre Aparecida do Taboado (MS) e Rondonópolis (MT), é uma das principais vias de escoamento do agronegócio.
Repúdio do PT
Em nota, o PT disse que o Tesouro não pode bancar eventuais prejuízos de uma concessionária:
A empresa [Rumo] tinha pleno conhecimento de que sua concessão da Malha Oeste, com prazo de 30 anos, encontrava-se próxima do término. Também era de conhecimento público que o Tribunal de Contas da União havia apontado irregularidades na continuidade contratual e sinalizado para a possibilidade de caducidade da concessão. Ainda assim, a concessionária celebrou contrato com a ArcelorMittal para prestação de serviços ferroviários em período posterior ao encerramento de sua concessão e, agora, pretende que o Governo Federal assuma os custos decorrentes dessa decisão empresarial. Sob nosso entendimento, essa pretensão não deve ser acolhida.
O texto, que é assinado por Afonso Carneiro Filho e Lúcia Maria Mendonça Santos (coordenadora do Setorial Nacional de Logística, Transportes e de Mobilidade Urbana do PT) diz ainda:
Caso essa excrescência contratual tenha sido incorporada por meio de algum termo aditivo aprovado pela ANTT, caberá à própria Agência responder pelas consequências do ato, inclusive apurando as responsabilidades administrativas de quem autorizou tal procedimento.
A Rumo teve lucro líquido de R$ 865 milhões em 2025:
Com uma malha ferroviária com cerca de 14 mil quilômetros e ligação direta com os portos de Santos, Paranaguá, São Francisco do Sul e Rio Grande, garantimos maior agilidade na movimentação de açúcar, fertilizantes, grãos e derivados, que são provenientes das principais regiões agrícolas nacionais. Também somos os responsáveis pelo transporte de 26% do volume de grãos exportados pelo Brasil.
Fonte: Revista Fórum
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