Crise no Agro: pecuarista perde fazenda para banco

Escrito por em 15 de Setembro, 2026

A crise de endividamento que avança sobre o agronegócio brasileiro fez um produtor perder sua propriedade no Tocantins. A Fazenda Santo Antônio, propriedade de 435 hectares localizada em Peixe, no sul do Estado, passou definitivamente para o controle do Santander após o antigo proprietário não conseguir pagar uma dívida milionária.

Avaliada em R$ 9,6 milhões, a fazenda pertencia a um pecuarista que aumentou fortemente seu endividamento entre 2021 e 2022. Nesse período, ele obteve aproximadamente R$ 9,5 milhões em crédito junto ao Santander.

Para garantir os novos empréstimos, a propriedade foi hipotecada nove vezes. O produtor começou a enfrentar dificuldades para honrar os pagamentos e precisou renegociar a dívida. Em 2025, o Santander substituiu as garantias anteriores pela alienação fiduciária do imóvel.

A mudança foi decisiva. Como o financiamento não foi quitado, o banco assumiu definitivamente a fazenda em 2026, diretamente no cartório e sem necessidade de uma ação judicial para tomar a propriedade. As informações foram reveladas em reportagem publicada pelo UOL neste domingo (13).

O nome do antigo proprietário não foi divulgado. Procurado pelo UOL, ele não respondeu. O Santander afirmou que não comenta casos específicos de clientes.

Fazenda será administrada por fundo

A Fazenda Santo Antônio deverá ser incorporada a uma estrutura financeira criada para administrar propriedades rurais retomadas pelo Santander. O portfólio será gerido por um fundo de investimento ligado ao mercado financeiro de São Paulo.

Entre as possibilidades analisadas está o arrendamento da própria fazenda ao antigo dono. Nesse cenário, o pecuarista poderia continuar explorando a área, mas deixaria de ser proprietário e passaria a pagar pelo uso da terra que antes lhe pertencia.

O Santander já reúne imóveis rurais em fundos de investimento do agronegócio. Em um desses fundos, do qual o próprio banco é o único cotista, existem fazendas avaliadas em aproximadamente R$ 97 milhões. A propriedade de Peixe deverá ser acrescentada a esse patrimônio.

Calote no campo chega a R$ 48 bilhões

O caso tocantinense faz parte de uma crise de alcance nacional. Em junho de 2026, o volume de crédito rural inadimplente chegou a R$ 48 bilhões, crescimento de 2.300% em comparação com os R$ 2 bilhões registrados cinco anos antes.

No mesmo período, a taxa de inadimplência saltou de 0,54% para 5,63%. Outros R$ 72 bilhões estão classificados como ativos problemáticos, ou seja, operações que apresentam elevado risco de não serem pagas.

Os grandes produtores concentram a maior parte do rombo. Dos R$ 48 bilhões em atraso, cerca de R$ 29 bilhões estão relacionados a produtores rurais de alta renda. O calote nesse grupo cresceu mais de 7.000% em cinco anos.

O Banco Central disponibiliza dados de carteira ativa, inadimplência e ativos problemáticos com divisão por Estado e modalidade de crédito, mas não informa quantas fazendas foram tomadas pelos bancos em cada unidade da Federação.

Também não existe, nas bases públicas consultadas, um levantamento consolidado sobre o número de propriedades rurais executadas ou retomadas por instituições financeiras no Tocantins. Nem mesmo os três grandes bancos consultados pelo UOL, Banco do Brasil, Bradesco e Santander, revelaram o total de hectares rurais que passaram para seus patrimônios no país.

ocantins teve 30 pedidos de recuperação judicial

Outro indicador mostra que a pressão financeira sobre o campo tocantinense vai além da Fazenda Santo Antônio. O Tocantins registrou 30 pedidos de recuperação judicial relacionados ao agronegócio apenas no primeiro trimestre de 2026.

O número colocou o Estado entre os dez com mais solicitações no país, empatado com o Rio Grande do Sul. O levantamento da Serasa Experian considera produtores rurais pessoas físicas e jurídicas, além de empresas ligadas à cadeia do agronegócio.

Os pedidos de recuperação judicial não significam que 30 fazendas foram perdidas. Trata-se de um instrumento utilizado para suspender cobranças e tentar reorganizar as dívidas, justamente para evitar a falência e a perda do patrimônio. Mesmo assim, o crescimento dos processos revela o agravamento da dificuldade financeira no setor.

Em todo o Brasil, foram apresentados 474 pedidos de recuperação judicial ligados ao agro nos três primeiros meses de 2026, aumento de 22% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os produtores rurais que atuam como pessoa jurídica registraram o maior avanço, de 73,5%.

Crédito farto virou dívida impagável

A crise começou a ser formada durante o período de forte valorização da soja, do milho e do gado, entre 2020 e 2023. Com juros baixos e margens elevadas, muitos produtores recorreram ao crédito para comprar terras, máquinas e ampliar a produção.

Entre julho de 2020 e julho de 2023, a carteira de crédito rural cresceu 83%, o dobro da expansão registrada nas demais modalidades de financiamento.

O cenário mudou com a queda das margens, o aumento dos custos de produção e a disparada dos juros. Em 2025, a taxa Selic chegou a 15% ao ano. Em algumas linhas livres de crédito rural, os juros cobrados dos produtores alcançaram 23% ao ano.

Com as dívidas vencendo e uma receita menor, parte dos produtores perdeu capacidade de pagamento. Os bancos endureceram as garantias e passaram a exigir alienação fiduciária das propriedades, mecanismo que facilita a retomada das terras em caso de inadimplência.

No Banco do Brasil, apenas 3% dos contratos da safra 2024/2025 firmados com grandes produtores tinham alienação fiduciária. Na safra seguinte, essa participação saltou para 63%. Em 2026, a instituição iniciou a retomada definitiva de mais de 130 imóveis rurais em todo o país.

Crise fecha lojas e cancela feira em Peixe

Os efeitos da crise já atingem a economia de Peixe, município fortemente dependente da produção rural. A feira agropecuária de 2026 foi cancelada porque os produtores não tinham recursos para fechar negócios e os vendedores temiam comercializar máquinas e insumos sem receber.

Ao UOL, o organizador do evento, Diego Mesquita, descreveu a gravidade do momento: “Peixe é 90% movida pelo agro. Só tem loja fechando na avenida principal da cidade”.

A perda da Fazenda Santo Antônio mostra que o endividamento deixou de representar apenas um problema nos balanços bancários. No Tocantins, a crise já começa a mudar a propriedade da terra, retirar fazendas das mãos de produtores e transferir áreas rurais milionárias para bancos e fundos de investimento.


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